terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Ter ou não ter filhos: analisando questões como aborto, contracepção, infertilidade e adoção - (Parte 2)


Neste artigo falaremos um pouco sobre a questão da legitimidade da contracepção em geral. As Escrituras não mostram de forma direta se é biblicamente apropriado ou não usar métodos contraceptivos. Não há passagem bíblica que menciona explicitamente o termo “contracepção”, como também não há textos que indiquem de modo específico se é apropriado ou não usar métodos contraceptivos. Nem por isso, contudo, devemos supor que as Escrituras não têm nada a dizer a respeito desta questão.
Em Gênesis 1:28 vemos que a principal finalidade da união conjugal é a procriação: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra”. No salmo 127:3 vemos que os filhos são bênção de Deus: “Herança do SENHOR são os filhos; o fruto do ventre, o seu galardão” e no Salmo 128:3 diz que o homem que teme a Deus encontrará felicidade no lar, “seus filhos serão como rebentos da oliveira, à roda da tua mesa”. Ter filhos é a norma esperada dos casamentos e deve ser entendido como uma boa dádiva de um Pai celestial amoroso. Devemos rejeitar essa mentalidade contraceptiva que considera a gravidez e os filhos incômodos a serem evitados, e não dádivas a serem recebidas, amadas e cuidadas (KOSTENBERGER; JONES, 2011, p.130-132).
Mesmo que a finalidade biológica do sexo seja a procriação, conforme afirma C.S. Lewis em seu livro “Cristianismo puro e simples”, ele faz um paralelo útil com o apetite alimentar, ou seja, mesmo que o propósito biológico de comer seja de restaurar o corpo, podemos comer com apetite, apreciar e degustar a textura dos alimentos de forma que Deus seja glorificado (1 Co 10:31). No que diz respeito ao sexo, Deus dá ao homem o desejo e o apetite sexual porque quer que ele tenha muitas relações sexuais com sua esposa e encontre prazer (CHALLIES, 2011, p.52-53).
Afinal, deve-se concluir então que todo ato sexual precisa estar aberto para a concepção? Há pessoas que afirmam que sim, citando Gênesis 38:6-10. Nesta passagem vemos o relato de Onã e Tamar. Deus tirou a vida de Er o primogênito de Judá por ser um homem perverso, e deixou sua esposa Tamar viúva. O costume hebraico conhecido como casamento de levirato (Dt 25:5-10) determinava que quando um homem casado morria sem deixar descendentes a viúva devia se casar com o parente mais próximo do falecido. O primeiro filho desse casamento subsequente levaria o nome do irmão mais velho e se tornaria herdeiro dele. Onã, próximo irmão de Er, devia assumir a responsabilidade de dar um filho a Tamar, porém, apesar de Onã ter relações sexuais com Tamar, ele evitava que ela concebesse ao retirar-se antes da ejaculação. O texto diz que ele “derramava o sêmen no chão” e “o que ele fazia era mau aos olhos do Senhor (Gn 38:9-10).
Os católicos romanos costumam citar essa passagem para sugerir que o Senhor se desagradou particularmente da interrupção do processo sexual para evitar a procriação. De acordo com essa postura, todos os meios de contracepção que interrompem o processo natural de procriação são contrários à vontade de Deus (Papa Paulo VI, Humanae Vitae, p. 14-17). Ao examinar melhor o texto vemos que o desprazer do Senhor em Gn 38:10 não estava associado diretamente à prevenção da gravidez em si, mas sim, ao modo particularmente explorador, abusivo e desperdiçador como Onã se relacionava sexualmente com Tamar. A questão aqui era que Onã não estava cumprindo sua obrigação de dar um descendente a Tamar, e a pena não era morte, mas humilhação (Dt 25:9-10).
Deus criou o casamento para outros fins além da procriação, pois deve haver companheirismo por meio do vínculo conjugal (Gn 2:18,24), prazer sexual (Pv 5:15-23; Livro de Cântico) e fidelidade (1 Co 7:1-9).
Portanto, não é correto afirmar que em toda relação sexual o casal deva abster-se do uso de contraceptivos. Essa ideia de que absolutamente cada um dos atos sexuais dentro do casamento deve estar aberto à procriação vai além das exigências bíblicas. No próximo artigo falaremos sobre as formas moralmente permissíveis e não permissíveis de contracepção, até lá!

REFERENCIAL TEÓRICO

KOSTENBERGER, Andreas J; JONES, David W. Deus, casamento e família: reconstruindo o fundamento bíblico. São Paulo: Vida Nova, 2011.

CHALLIES, Tim. Desintoxicação sexual: um guia para homens que querem fugir da imoralidade sexual. São Paulo: Vida Nova, 2011.

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